sábado, 11 de outubro de 2014

ENTRE LUAS



Lá está um couro lindo e bem esticado, bem enfeitado, com Boticários e Avons, perfeita forma que ilude e que atrai; que atiça a cobiça e desperta o desejo oculto.

Lá está a pérola preciosa de muitos olhares, que nem sequer suspeitam de terrível engano, que esconde o diabo nas formas gentis, os tridentes vermelhos, as garras aguçadas pelos batons, pelos jeitos e trajes sumários, ou muito sutis formas, alusões, sugestões, tudo a ver com um inferno que se cria sem maldade, com todas as maldades, que os inocentes não podem ver.

Lá está a pedra feita das pedras, muitas pedras, colocadas uma a uma, em um caminho ereto, para desenhar coisas, levantar impérios, que imperam nos preciosos sentimentos, que se tornaram pedras, lindas pedras, pintadas, arquitetadas pela inocência que se vitima pelas próprias mãos.

Lá está, a foice, a varanda, a mala, a boca professando facilmente a morte em algum lugar, e se negando a aceitar a culpa, atirando pedras, puxando gatilhos, emitindo jatos de pensamentos venenosos, e fazendo jorros de sangue e raiva.

Lá está, acima de qualquer suspeita, rainha da terceira guerra, a guerra fria, o frio do gelo que gela o coração das pessoas, que atormenta dia e noite, inocente, tranquilo, traiçoeiro, criando raízes em muitas direções, lotando de assombro a madrugada vazia, os hospitais dos gritos desesperados, e felizes médicos que tem um trabalho, enfermeiras, coveiros, funerários.

Lá está ela esbaldando risos, chorando lágrimas que caem entre risos esbaldados, feliz e triste, quando desmorona teias, cria enredos.

E o mundo persiste, e a vida persiste, e os bezerros continuam um destino criado há transmontanas eras, deveras em rumos que se repetem até que um dia, um despertar derradeiro, transforma a garganta do infante em um poço que se vomite apenas o que seja tragável e os dentes ruminem coisas que constroem, lá dentro das cruéis fossas, miúdos fascinados por uma vida que mereça ser vivida; impérios que mereçam ser contemplados, entre luas que realmente iluminam.

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