Lá está um couro lindo e bem
esticado, bem enfeitado, com Boticários e Avons, perfeita forma que ilude e que
atrai; que atiça a cobiça e desperta o desejo oculto.
Lá está a pérola preciosa de
muitos olhares, que nem sequer suspeitam de terrível engano, que esconde o
diabo nas formas gentis, os tridentes vermelhos, as garras aguçadas pelos
batons, pelos jeitos e trajes sumários, ou muito sutis formas, alusões,
sugestões, tudo a ver com um inferno que se cria sem maldade, com todas as
maldades, que os inocentes não podem ver.
Lá está a pedra feita das pedras,
muitas pedras, colocadas uma a uma, em um caminho ereto, para desenhar coisas,
levantar impérios, que imperam nos preciosos sentimentos, que se tornaram
pedras, lindas pedras, pintadas, arquitetadas pela inocência que se vitima
pelas próprias mãos.
Lá está, a foice, a varanda, a
mala, a boca professando facilmente a morte em algum lugar, e se negando a
aceitar a culpa, atirando pedras, puxando gatilhos, emitindo jatos de
pensamentos venenosos, e fazendo jorros de sangue e raiva.
Lá está, acima de qualquer
suspeita, rainha da terceira guerra, a guerra fria, o frio do gelo que gela o
coração das pessoas, que atormenta dia e noite, inocente, tranquilo,
traiçoeiro, criando raízes em muitas direções, lotando de assombro a madrugada
vazia, os hospitais dos gritos desesperados, e felizes médicos que tem um
trabalho, enfermeiras, coveiros, funerários.
Lá está ela esbaldando risos, chorando
lágrimas que caem entre risos esbaldados, feliz e triste, quando desmorona
teias, cria enredos.
E o mundo persiste, e a vida
persiste, e os bezerros continuam um destino criado há transmontanas eras,
deveras em rumos que se repetem até que um dia, um despertar derradeiro,
transforma a garganta do infante em um poço que se vomite apenas o que seja
tragável e os dentes ruminem coisas que constroem, lá dentro das cruéis fossas,
miúdos fascinados por uma vida que mereça ser vivida; impérios que mereçam ser
contemplados, entre luas que realmente iluminam.
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